Selic levemente caiu, e recuperação judicial bate recorde em 2025: o impacto real dos juros nas empresas brasileiras

A recente redução da taxa Selic para 14,75% ao ano trouxe um sinal de possível alívio na economia brasileira. No entanto, esse movimento ocorre em um cenário preocupante: o país registrou, em 2025, um recorde histórico de empresas em recuperação judicial, evidenciando o impacto acumulado de um ciclo prolongado de juros elevados.

Segundo levantamento publicado pelo Valor Econômico, o Brasil encerrou 2025 com 5,6 mil empresas em processo de recuperação judicial, um crescimento de 24,3% em relação ao fim de 2024. Apenas ao longo de 2025, 1,6 mil empresas recorreram à Justiça para tentar reestruturar suas dívidas, enquanto somente 561 conseguiram sair do processo.


O efeito acumulado dos juros altos

Durante boa parte de 2025, a taxa básica de juros permaneceu em torno de 15% ao ano, mantida nesse patamar por várias reuniões consecutivas do Comitê de Política Monetária (Copom). Esse nível elevado de juros impactou diretamente o custo do capital no país.

Na prática, isso significou:

  • dívidas mais caras para empresas já endividadas
  • maior dificuldade de acesso a crédito
  • compressão das margens operacionais

Esse cenário não gera uma quebra imediata. Ele gera desgaste financeiro progressivo.

As empresas continuam operando, muitas vezes recorrendo a soluções de curto prazo, como antecipação de recebíveis ou crédito emergencial. No entanto, à medida que o custo dessas alternativas se acumula, o caixa se deteriora.

Quando o fôlego financeiro acaba, a recuperação judicial deixa de ser uma escolha estratégica e passa a ser uma tentativa de sobrevivência.


O recorde de 2025 não é coincidência

Os dados mostram que o problema se intensificou ao longo do ano. Apenas no último trimestre de 2025, 510 empresas entraram com pedido de recuperação judicial, o maior volume já registrado para o período, com crescimento de 7,5% em relação ao trimestre anterior.

Além da quantidade, o volume financeiro também chama atenção. Essas empresas declararam R$ 40 bilhões em dívidas, mais que o dobro dos R$ 16 bilhões registrados no trimestre anterior.

Parte relevante desse valor está concentrada em grandes casos, como o da Unigel, com um passivo de aproximadamente R$ 19 bilhões. No entanto, o fenômeno não se restringe a grandes empresas.

Ele está disseminado.

E é justamente nas pequenas e médias empresas que o impacto é mais silencioso — e mais perigoso.


Por que as PMEs são as mais vulneráveis

Apesar de grandes companhias ganharem destaque, o problema estrutural está nas PMEs.

Isso porque elas operam com limitações claras:

  • menor acesso a crédito estruturado
  • baixa previsibilidade de caixa
  • pouca capacidade de absorver choques econômicos

Segundo o Índice RGF de Recuperação Judicial, existem 2,13 empresas em recuperação judicial a cada mil no Brasil, com maior concentração em setores como:

  • agropecuária: 13,53 por mil
  • indústria: 6,74 por mil
  • infraestrutura: 4,11 por mil

Esses números indicam que setores intensivos em capital e dependentes de financiamento foram os mais impactados pelo ciclo de juros elevados.


A queda da Selic não resolve o problema no curto prazo

A redução da Selic para 14,75% representa um sinal importante, mas ainda insuficiente para reverter o cenário atual.

Isso porque:

  • as dívidas acumuladas foram contratadas com juros elevados
  • o crédito ainda segue restritivo
  • muitas empresas já estão financeiramente fragilizadas

Ou seja, o corte de juros não elimina o problema. Ele apenas reduz a pressão futura.

As empresas que entraram em recuperação judicial em 2025 são, em grande parte, resultado de decisões tomadas meses — ou até anos — antes, em um ambiente de crédito caro e gestão financeira limitada.


O risco para 2026: repetir os mesmos erros

O próprio levantamento aponta um alerta: o número de empresas em recuperação judicial deve continuar aumentando em 2026.

O motivo é claro.

Muitas empresas estruturaram seus planos de recuperação considerando uma queda mais rápida dos juros. No entanto, o cenário se mostrou mais rígido do que o esperado.

Como destacou a consultora Roberta Gonzaga, da RGF:

“Não é porque aprovou a recuperação que a empresa começa sem dívidas. Ela tem que pagar todo o passivo que foi negociado.”

Isso evidencia um ponto crítico: recuperação judicial não resolve o problema por si só. Ela apenas reorganiza o passivo.

Se a gestão não muda, o risco permanece.


Conclusão

O recorde de recuperações judiciais em 2025 não é um evento isolado. Ele é consequência direta de um ciclo prolongado de juros elevados, combinado com fragilidades estruturais na gestão financeira das empresas brasileiras.

A recente queda da Selic é um passo importante, mas não suficiente para reverter rapidamente esse cenário.

O que está em jogo não é apenas o custo do dinheiro.

É a capacidade das empresas de gerir esse custo com inteligência, previsibilidade e controle.

Sem isso, o problema não desaparece.

Ele apenas muda de forma.